Disciplina

Disciplina

Portugal está numa situação parecida com a dos filhos de antigamente.

Quando fui educado, lembro-me bem como me ensinaram a lutar por aquilo que queria e a compreender que nada caía do céu e tudo levava tempo.

Os pais treinavam os filhos a saber esperar, a saber persistir, a aguardar diligentemente a compensação do seu esforço.

Hoje, são poucos os pais que educam segundo este modelo.

A vida corre muito mais depressa, as solicitações precipitam-se em cascata, o critério do ter imprime um ritmo frenético à vida.

Antes, havia tempo para o ritual do tempo, a vontade era formada na resistência.

Hoje, o tempo tem o ritual de cada momento, a vontade é formada no frenesim de cada satisfação.

Antes, o tempo era uma escola, hoje é um embaraço. Antes, a disciplina interior sabia a libertação, pela firmeza que conferia à nossa atitude, hoje, a disciplina interior sabe a escravidão, pelo custo que confere à realização imediata dos nossos objectivos.

Nos nossos dias, os pais desmesuram-se em ajudas aos filhos, em apoios, em cursos, em oportunidades, como antes não sucedia.

Mas negligenciam, nesta mímica social estranha de correr para todo o lado, os mais simples valores da correcta formação humana.

Quantos pais hoje falam aos filhos a saber esperar?

Resmungamos generalizadamente que só se fala em directos, parece que esquecemos os nossos deveres. Resmungamos que as expectativas de vida fácil estão demasiado aceleradas e que há um desencontro entre o que todos querem e o que é possível a todos dar.

Resmungamos, mas não vamos ao fundo da questão. Como podem os pais de hoje transmitir aos filhos os valores mais preciosos, se eles próprios os abandonaram?

Como podem os pais educar os filhos a saber esperar, se eles próprios se renderam à lógica imediatista da vida moderna?

Como podem os pais transmitir disciplina aos filhos, se eles próprios perderam os critérios em que a disciplina se funda?

A disciplina, no entanto, é a ferramenta decisiva da vida, como o saber esperar é a atitude própria das grandes realizações.

Como diz M. Scott Park, com alguma disciplina, resolvemos alguns problemas da vida, com total disciplina resolvemos todos os problemas da vida.

Na vida afectiva, não há grandes amores, nem grandes amizades sem disciplina. Também na vida profissional ou empresarial, não há frutos por ai além a receber sem disciplina.

A disciplina olha os problemas de frente e resolve-os. A disciplina cuida da força de vontade, dispõe-se ao essencial, sabe esperar. A disciplina aceita a renúncia, o sacrifício, a abdicação – palavras hoje interditas -, sabendo pagar o preço dos grandes cometimentos.

Há trinta anos repetiam-nos estas coisas e ainda bem.

Portugal está numa encruzilhada que exige atitude firme. Exige pagar o preço, aceitar alguma abdicação, fazer o que tem que ser feito.

O ano de 2003 é um grande teste à nossa condição de povo. Porque é preciso persistir, com disciplina interior e saber esperar pela compensação que só virá mais adiante.

António Pinto Leite

In Expresso 2002

Comentários
  1. Cláudia Santos diz:

    Desde já felicito todos os membros pertencentes ao blog, por este estar muito bem desenvolvido e conseguido. Espero que o blog tenha continuidade devido a abordar temas do dia-a-dia e com tanto interesse. Parabéns…

    • fatimadealmeida diz:

      Claudia,
      Bem haja pela sua participação e pela motivação que nos deixou.
      Fátima de Almeida.

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